um dia de rainha

Que se levante o sol. Devagarzinho. Decreto uma manhã azul para aqueles que gostam de praia, e uma outra cinzenta para quem tiver preferência por nuvem. Comuniquem oficialmente à Presidência da República que o mandato do dia é meu, e não se esqueçam de anexar em letras maiúsculas, porque eu mandei dizer que é assim: HOJE TODO MUNDO MANDA. Cada desejo é uma ordem, à exceção dos desejos de vingança, e todo pedido será prontamente atendido. Interditem os gritos. Interrompam as farpas. Eliminem as pragas. Despertem as almas. Para os finais de amores, o exílio. A palavra nefasto está terminantemente proibida. Avisem à morte que hoje é dia de folga. Em compensação, a sorte estará atarefadíssima. Façam banir o que for dor. Estão cancelados os crimes. Exijo que os jornais de amanhã só ofereçam boas notícias. Estão vedados os julgamentos, norma que beneficiará o julgador – de quem será arrancado o fel – e o julgado – a quem será devolvida a liberdade de experimentar, acertar, errar, aprender, e seguir em frente. A responsabilidade de todo e qualquer ato praticado sob a jurisdição das minhas vinte e quatro horas caberá única e exclusivamente ao seu autor. Enquanto vigorarem meus desejos, a verdade não tem dono. Considere-se expulso de cada minuto aquele que for indelicado. Junto com estes, afastem os aproveitadores, os corruptos, os bajuladores e os chatos. Peçam aos golfinhos dos mares que se manifestem e ordenem aos mares que se enquadrem em toda e qualquer janela, nos altos sertões, inclusive. À tarde, não serão admitidas tristezas, a não ser aquelas que a gente acalenta com alegria. Exterminem as topadas. Os soluços. Os pecados. Os enganos. Pratiquem a arte do assovio. Desaprisionem as lembranças. Portem estandartes coloridos. Afugentem as invejas. Dissipem as dúvidas. Expatriem as culpas. Socorram os traídos. Promovam reencontros. Dêem-se, aos pares, as mãos, e haja rodopio.
Às 3 em ponto, em edição extraordinária, chegará a novidade: todas as notas de dinheiro foram devidamente embaralhadas e redistribuídas. Economistas, sociólogos e teóricos ficarão malucos, antes de entrar no jogo, quando então darão boas risadas, como em toda brincadeira divertida. Reivindico um pôr de sol estonteante jamais visto nem em filme de cinema. E que a noite traga brisa e que a brisa atice o fogo. Mandem acender quatro luas no céu e convoquem os casais de namorados, em seguida. Se for preciso, refaçam as contas para que não sobre ninguém sozinho. Previnam à indiferença que desapareça, por obséquio, e solicitem a presença dos fascínios. Informem às mãos que se procurem, às bocas que se beijem, aos corpos que se endoidem. Estão intimados os batimentos cardíacos e os frios na barriga. A paixão acaba de ser nomeada primeira-ministra da madrugada. A partir de meia-noite, vale cometer loucura, apagar passado, arder em chamas, subir pelas paredes, e até morder, desde que provoque arrepio. E quando outro dia nascer, e tudo voltar a ser como era antes, espalhem aos quatro ventos a profecia do poeta, até que ela se transforme em lei irrevogável: “O homem será Deus, do seu verdadeiro tamanho, com a cabeça nos céus, com os séculos nos olhos. E os deuses estarão nas ruas”. (Oduvaldo Vianna Filho)

Um Dia de Rainha, de Adriana Falcão, publicado Na Veja Rio, em 28 de novembro de 2004. A ilustração é do gênio da manipulação de imagens, Christophe Gilbert.

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Sobre Felipe Lins
Onde eu nasci passa um rio.

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