a língua portuguesa

Um dos meus blogs preferidos atualmente é o Liberal, Libertário, Libertino, de Alex Castro. Como ele mesmo descreve, “um blog sobre rebeldia, contemplação e sacanagem, regado a muita literatura e humor.”

Em tempos de copa do mundo e estando nos Estados Unidos, onde é comum encontrar pessoas de todos os lugares, esse texto me fez refletir bastante sobre o meu orgulho da língua portuguesa, maior até que o próprio orgulho obrigatório de ser brasileiro.

Parafraseando Caetano, a língua é de fato a minha pátria.

A língua portuguesa não está na defensiva, não está decadente, não está morrendo, não precisa ser salva, não precisa ser defendida.

O português, presente em todos os continentes, é a sexta língua mais falada do mundo e a terceira do ocidente. Ele não tem o monopólio de palavras – sim, vários idiomas têm palavra para “saudade”. Ele não é mais rico do que nenhum outro idioma. Chega a ser ingenuamente engraçado o patriotismo ignorante de quem bate no peito pra dizer, por exemplo, que o português é mais rico que o inglês. Para começar, ninguém que diz isso consegue me explicar qual é seu critério objetivo de riqueza de uma língua e, quando conseguem (número de vocábulos, etc), é fácil de provar que o inglês é mais rico do que o português.

A questão é outra: e daí? O português não precisa ser mais rico do que ninguém. O português é. E isso basta.

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O português é falado por 260 milhões de pessoas (sendo que 210 milhões como primeira língua) e é o idioma oficial de 10 países, em todos os continentes. Em vários países da África e Ásia, é usado como língua-franca, possibilitando o contato entre tribos e etnias de raízes as mais diversas. Em regiões de presença portuguesa historicamente forte, a língua ainda é amplamente falada: Goa, Diu, Málaca, Zanzibar, Sri Lank, Andorra, Luxemburgo, Namíbia, Paraguai e, por que não?, Boston e Newark. (No Path, trem urbano entre New Jersey e Nova Iorque, escuta-se mais português do que inglês, em grande parte aliás pelo volume.) Além disso, em países como Zâmbia, Uruguai e Argentina, o ensino de português é obrigatório nas escolas.

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No Timor Leste, por exemplo, colônia portuguesa por 400 anos, o idioma português foi proscrito pelo conquistador indonésio por 30 anos. Era proibido até mesmo possuir livros em português. Duas gerações de timorenses cresceram sem falar português. Ainda assim, quando o país finalmente tornou-se independente e seu novo Congresso, democraticamente eleito, decidiu qual seria a língua oficial do novo país, o português foi escolhido. O lobby dos Estados Unidos e da Austrália (vizinho e principal parceiro comercial) em prol do inglês foi forte. Afinal, as duas gerações que cresceram proibidas de falar português se educaram falando parcialmente inglês. O lobby pelo tétum, a mais falada das línguas nativas à ilha, também foi forte. Afinal, não era uma língua européia, imperialista, imposta. Mas e todas as outras etnias e línguas locais? Finalmente, decidiu-se pelo português, não só por ter sido a língua histórica do país pelos últimos séculos, por ter sido a língua da resistência à Indonésia mas também, muito importante, por ser uma língua global, consolidade, com tradição científica, que poderia ser usada tanto para escrever uma constituição nacional quanto um manual de engenharia química. A Diane foi mandada pela CAPES ao Timor Leste em 2005, para ajudar na transição do país para uma nação de língua portuguesa e, depois de duas missões, se apaixonou pelo país. Hoje, ela trabalha para a ONU, alocada no equivalente timorense ao Tribunal Superior Eleitoral, ajudando a organizar as eleições locais. Em junho, vou visitá-la.

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As duas principais nações africanas de língua portuguesa, Angola e Moçambique, com um total de 40 milhões falantes, estão em momento cultural exuberante, produzindo excelente literatura pela pena de gente como Mia CoutoAgualusaPepetela. Quarenta anos depois de suas independências, agora finalmente livres do ranço imperialista colonial português, essas nações podem, ao mesmo tempo, abraçar sua herança cultural lusitana e, também, mesclá-la livremente à rica cultura local tradicional milenar africana, produzindo assim uma literatura nova, própria, única. Mia Couto, especificamente, está fazendo acrobacias com a língua portuguesa que seriam impensáveis algumas décadas atrás.

Imagens em Língua PortuguesaHistória da Língua Portuguesa

Portugal também vive um excelente momento. Depois da Revolução dos Cravos, de perder as colônias africanas e das difíceis décadas de setenta e oitenta, os portugueses estão vivendo literalmente uma renascença. Por um lado, a distância temporal está permitindo que a literatura finalmente revise criticamente e faça as pazes com a presença portuguesa em África – basta citar alguns excelentes livros de Lobo Antunes, como “As Naus” e “Esplendor de Portugal“. Por outro, finalmente livres do seu império e da sua heróica vocação marítima, e agora membros da União Européia, a cultura portuguesa está, talvez pela primeira vez desde que Henrique o Navegador tomou Ceuta em 1415 e deu início aos Grandes Descobrimentos, se voltando para dentro, explorando sua vocação européia, discutindo afinal o que existe de europeu no Portugal. Saramago, apesar de uma figura humana algo chata, produz literatura de primeira. Lobo Antunes (que em minha opinião deveria ter ganho o Nobel de Saramago), além de seus experimentos estilísticos que estão levando a língua portuguesa para além de onde a levou Clarice Lispector, também tem agido como a consciência de Portugal para questões como a guerra de Angola (“Os Cus de Judas“), a ditadura salazarista (“Manual dos Inquisidores“) e a difícil integração dos africanos negros à sociedade portuguesa (“Meu Nome É Legião“). Para não falar, claro, de toda uma novíssima geração explorando não apenas esses temas mas também a crescente europeização de Portugal.

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Já o Brasil, por seu lado, não tem nenhum escritor da estatura deMia Couto ou Lobo Antunes, levando a língua portuguesa ao seu limite. A cultura brasileira, já consolidada e estável, não está passando por nenhuma dessas dramáticas eras históricas que deram origem à exuberante produção contemporânea em Portugal e nos países africanos de língua portuguesa. Nossa revolução é outra: somos 80% dos falantes de português, em um país estável, consolidado, de economia forte, de mercador consumidor gigantesco. Apesar das cassandras que desde sempre clamam a morte do mercado editorial brasileiro, esse mesmo mercado só faz crescer, consistentemente, há décadas. Dados de 2010 mostram que os brasileiros estão lendo mais do que nunca: 4,7 livros por habitante, sendo 8,3 por habitante com formação superior. Os 40 milhões de brasileiros que saíram da miséria nos últimos anos (um pouco menos do que a população conjunta de TODOS os outros países falantes de português juntos) não estão consumindo somente carne, mas também cultura. Somos nós que, ao comprá-la e lê-la, vamos viabilizar a nova produção literária em língua portuguesa: a melhor receita para estimular a nascente literatura moçambicana é colocá-la nas estantes dos brasileiros. O mercado consumidor da língua portuguesa somos nós.

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Sobre Felipe Lins
Onde eu nasci passa um rio.

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