Gente que sabe o seu lugar

Gente que Sabe o seu Lugar (Apartheid Brasileiro, 4 de 4)

Desde que passei a morar fora, o que mais me incomoda nas visitas ao Brasil é o modo deferente como sou tratado pelas pessoas que acham que são inferiores a mim, pelas pessoas que pertencem à casta dos intocáveis, pelas pessoas que aprenderam desde cedo a respeitar todos os caprichos dos sinhôzinhos (até mesmo os de oito anos!), pelas pessoas que olham pra baixo, não respondem, não questionam, não criam caso.

Eu fico doente, incomodado, enojado, não sei o que fazer, não sei onde me enfiar. O porteiro vem falar comigo alguma coisa do prédio, já com aquele tom servil, já se desculpando por tomar o meu ó tão precioso tempo, e eu tenho vontade de pegá-lo pela gola e gritar: “Você sabe que você é igual a mim, não é? Que eu sou você e que você só eu? Que a única coisa que realmente nos separa foi a barriga de onde saímos? Que se você tivesse nascido em berço esplêndido e ido à Europa, também estaria fazendo Phd, dirigindo empresa montada pelo papai ou sendo vice-presidente de multinacional – como tantos dos meus coleguinhas mais burros, tão burros quanto o mais burro porteiro, mas que estudaram em boas escolas, têm pais ricos e contatos influentes?”

Mas eu sei o que ele iria dizer. Ele diria “sim, senhor, claro, claro, sim, senhor, se o senhor diz!” Sacudi-lo pela lapela só o deixaria mais humilhado, só o deixaria mais convicto de que, diante dos caprichos insondáveis dos sinhôzinhos, melhor mesmo baixar a cabeça, concordar com tudo e fazer bem o serviço. Não vale a pena tentar entender, a vida deles é muito diferente da nossa, é outra realidade!

Como qualquer animal, inclusive eu e você, os nossos intocáveis são perfeitamente adaptados ao seu meio ambiente. Desde cedo, seus pais lhe inculcam o mais abjeto servilismo, pois bem sabem que é a melhor arma na luta pela sobrevivência. Os patrões estão sempre certos e não adianta responder, questionar, perguntar. As flies to wanton boys. Acabam com nossa vida em um momento de mau-humor e nem vão lembrar depois. Ninguém quer empregada perguntadeira, motorista com opiniões, caseiro respondão. Eles têm a realidade deles e nós, a nossa. Melhor não se misturar, não fazer amizade, não compreender. Manter sempre a distância.

Uma vez, almoçando na casa de uma amiga, ela chamou o motorista para se sentar e comer conosco, ao que se seguiram duas cenas paradigmáticas do apartheid brasileiro. Primeiro, ele, galantemente, humildemente, abjetamente, recusou: “Não, obrigado, madame, o que é isso?”

Eu não esqueço aquela expressão de onde já se viu no seu rosto, como se ele realmente, sinceramente, completamente se acreditasse mesmo em um nível diferente do nosso: imagina alguém como EU sentado à mesa com gente como VOCÊS!, seria impensável!, ele parecia estar dizendo. E também paradigmático foi o comentário em tom de confidência vitoriosa da minha amiga: “Está vendo como ele é incrível? O melhor motorista que já tive. E ainda por cima sabe o seu lugar!”

Sim, ele sabe. E ela também. Como sempre, o deslocado da história, quem não parece entender nada, quem não sabe seu lugar, sou eu. Entre essa patroa e esse motorista, qual é o meu lugar? Será que quero ter algum lugar nessa comédia de horrores? Será que meu lugar não é aqui, do lado de fora, observando, lembrando e escrevendo, tentando fazer vocês verem o horror de uma cena que talvez lhes pareça banal?

Não é uma má definição de arte engajada: tornar contagioso o horror.

(Alex Castro)

Eu me identifico demais com os textos do Alex Castro e ando sonhando com o livro de crônicas dele de presente de Natal, hein, super dica! A ilustração é do sueco Anton Weflo.

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Sobre Felipe Lins
Onde eu nasci passa um rio.

One Response to Gente que sabe o seu lugar

  1. adri says:

    muito bom o texto, consciente de quem somos e o que somos. Gostaria de saber como faço para comprar o livro de cronicas? Estou a viver em Portugal, e infelizmente nao encontrarei esse livro em livraria alguma por aqui. Muito obrigada

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